HEDERA 4TET x PEDRO CALAPEZ
Na temporada de 2024/2025, HEDERA 4TET estabeleceu um projeto composicional inovador no qual se explora a interpretação de obras de reconhecidos artistas nacionais de diversas disciplinas, desafiando todos os convidados a “comporem” obras especificamente para o ensamble que irão ser interpretadas pelos músicos do quarteto. Ao abordar obras de composição musical, arte visual, coreografia e escrita, ampliamos o entendimento da composição, permitindo a diferentes expressões uma comunicação transversal, estabelecendo e influenciando outras noções de interpretação sonora.
Estabelecem-se novas pontes entre as diferentes formas de expressão, procurando entender a criação sonora de um ponto de vista musical, visual, físico e literário. Aborda-se a questão de como entender visualmente o som; De como interpretar uma frase escrita ou fragmento de um poema de forma musical; Que vias possíveis se estabelecem na leitura do movimento físico de uma partitura coreográfica através do olhar de um instrumentista?
Concretiza-se assim a transposição de barreiras na criação artística permitindo a leitura de composições literárias, composições musicais, composições pictóricas e composições coreográficas, a partir da reinterpretação das mesmas com um quarteto de violinos. Consequentemente, neste projeto vão-se trabalhando não só as linguagens próprias de cada instrumentista, como também as linhas interpretativas entre a obra do artista convidado e o trabalho acústico e eletroacústico realizado ao longo do desenvolver do projeto, fundando e evoluindo assim novas abordagens e metodologias performativas para cada apresentação e para o coletivo como um todo.
VINTE E TRÊS MIL E QUARENTA OLHARES SONOROS
A criação proposta aos HEDERA 4TET foi a de uma composição musical elaborada a partir de um conjunto de pinturas de minha autoria, com regras que provocam organizações musicais que se desenvolvem no plano da improvisação e interpretação. Isto é, sugerir elementos ponto de partida para se estabelecer uma partitura que servirá de base, neste caso, à performance de um conjunto de quatro instrumentos de cordas.
Tendo sido realizadas quatro pinturas, que no espaço de exposição se enfrentam duas a duas, com uma característica comum a todas: cada conjunto é constituído por seis painéis em alumínio, de diferentes dimensões, tendo como cor de base seis cores, escolhidas de um catálogo RAL, mas não promovendo a sua coincidência com os respectivos painéis (explico: as seis diferentes formas têm cada uma, uma cor, mas no conjunto seguinte as cores preenchem formas diferentes) Inicia-se o igual para um resultado desigual. Em seguida alguns painéis receberam manchas escorridas ou espatuladas das na sua superfície e outros não.
Criou-se um conjunto de procedimentos que sugeri que se associassem a oitavas, estabelecendo correspondências que permitem ao instrumentista escolher, entre as notas musicais que tem à sua disposição, seis sons em simultâneo ou em sequência que como que materializam sonoramente as seis formas e as seis cores de base das quatro pinturas.
Surgirão assim quatro composições musicais com a dimensão temporal aproximada de dez minutos cada e que desafiam o olhar do espectador a cruzar simultaneamente formas e cores com percursos sonoras.
Quatro pinturas provocam quatro composições sonoras. Quatro composições sonoras provocarão outros tantos olhares. O círculo nunca se fecha, pois continuamente as diferentes composições visuais dialogam com as diferentes composições sonoras.
É a pintura a vencer a sua inevitável imobilização física e temporal pela transmissão de uma dinâmica visual acolhida e desenvolvida por sequências sonoras que naturalmente perduram no tempo.
(Seis cores x seis formas) + (quatro composições x quatro composições de diferente natureza) x(dez minutos x quatro vezes) 36x16x40 = 23.040
Pedro Calapez / Hedera+
