Seja dia ou seja noite pouco importa / Be it day or night, it matters not
Berardo Collection Museum - Lisbon, Portugal / Museu Soares dos Reis - Porto, Portugal -
16/06/2021 - 17/10/2021
The two artists met and have been close since 1953. I met them in the early 1980s, and since then we have not lost sight of one another, nor have I lost sight of their works, about which I have written. However, as this is not a biographical memoir, I will say that my point of departure will be the hypothesis that the works of the two artists are a rare example of perfect complementarity. André Gomes speaks of “a duet for cello and piano,” but also of divergent parallels, suggesting a form of collaboration that would be the opposite of cadavre-exquis. Let us see.
It is reasonable to assume that André Gomes has always worked exclusively with images, despite the fact we know that the references for these images come from many other arts—theatre, film, music, literature—as well as the so-called visual arts. His works are the laboriously constructed result of a work of composition of pre-existing images. Here we understand the term “images” in its senses more directly related to the notions of “imagery” and “imagination.”
It is difficult to suppose that Calapez could fully imagine his paintings—in the case of these paintings in particular, it would be even more difficult—before painting them, even though it seems reasonable that there is a specific intentionality which manifests itself during the process of doing and necessarily—in each particular work—in the decision regarding its conclusion.
There is no image which precedes and anticipates what will be the final result of the process of painting, the final image—the one we see—of the finished work. The image only appears at the end, and it is perhaps wrong to call it an image, because using expressions like “the image of a painting” is problematic. They are paintings. Could they be images?
Alexandre Melo
[PT]
Os dois artistas conhecem-se e são vizinhos desde 1953. Eu conheci-os durante a primeira metade da década de 1980, e desde então não nos perdemos de vista, nem perdi de vista os seus trabalhos, a propósito dos quais fui escrevendo. Entretanto, como não se trata de redigir uma memória biográfica, adianto que o meu ponto de partida será a hipótese de os trabalhos dos dois artistas serem um raro exemplo de perfeita complementaridade. André Gomes fala de «um dueto para violoncelo e piano», mas também de paralelos divergentes, sugerindo um modo de colaboração que estaria nos antípodas do cadavre-exquis. Vejamos.
É razoável supor que André Gomes sempre trabalhou e só trabalhou com imagens, apesar de sabermos que as referências para essas imagens provêm de muitas outras artes — teatro, cinema, música, literatura — além das chamadas artes visuais. As obras são o resultado laboriosamente construído de um trabalho de composição de imagens preexistentes. Entendemos aqui «imagens» nas suas aceções mais diretamente relacionadas com as noções de «imagética» e «imaginário».
É difícil supor que Calapez possa imaginar de modo exaustivo as suas pinturas — no caso destas pinturas em particular seria ainda mais difícil — antes de as pintar, mesmo que nos pareça aceitável que exista uma intencionalidade específica que se manifesta no decurso do processo do fazer e necessariamente — em cada obra em concreto — na decisão relativa à sua conclusão.
Não existe nenhuma imagem que preceda e antecipe aquilo que será o resultado final do processo de pintar, a imagem final — aquela que nós vemos — da obra acabada. A imagem só aparece no fim, e é pouco provável que se lhe deva chamar imagem, porque não é pacífico usar uma expressão como «a imagem de uma pintura». São pinturas. Serão imagens?
André Gomes sempre se aproximou das imagens, não sabemos se para alimentar a ilusão de que se poderia afastar delas. Calapez sempre se afastou das imagens, não sabemos se para alimentar a ilusão de que se poderia aproximar delas.
Alexandre Melo














